
Vejam na foto que delícia de presente estava me esperando em casa! Minha amiga B me mandou uma sacola de limões cravo, para uns, china, para outros. Para mim este é o melhor limão que temos por aqui. E esta paixão vem da infância.
Todos os domingos íamos para o sítio de meus avós que ficava a uns 30 quilômetros de São Paulo. Ao chegar uma porteira de madeira branca separava o mundo de fora daquele local encantado para mim. Não era automática, não, e o melhor era abri-la e com um impulso se pendurar nela e já sair correndo na frente do carro para logo chegar.
Na cozinha, minha avó que já estava preparando delícias para o almoço largava tudo para os beijos, afagos e abraços quentes e apertados. Minha primeira reação era sempre ver o que havia borbulhando no fogão. Se havia ragú de carne, então a massa já estaria secando ao sol, sobre grandes panos brancos com barrado de crochet, especialmente lavados e quarados para isto.
Eu logo era chamada a ajudar: Filha vá apanhar limão cravo para temperar a carne.
Ao sair da cozinha eu tinha um itinerário: Primeiro, passar pelo poço d água. Ele ficava sob um caramanchão de glicíneas, rodeado por um canteiro de miosótis, no topo de alguns degraus que eu subia solenemente, como se estivesse indo a um altar e lá eu depositava meus sonhos da semana ou do mês, ou do ano.
Depois, se fosse verão, um mergulho na piscina. Se fosse inverno, inventava outra coisa.
Em março, passava, sempre, pelo pé de caqui. Comia uma fruta, deliciosa. Se havia amoras, minhas mãos iriam ficar manchadas de vermelho por uns bons dias. Se havia nêsperas, mais uma parada. Na horta, apanhava, sempre, uma cenoura.
Esta chácara era irrigada por um sistema de caneletas de água fantástico, criação do meu avô, acho eu. A água do lago era bombeada por uma roda d’água de madeira imensa, que fazia um barulho delicioso, toc, toc, toc, para estes canais que se espalhavam por toda a propriedade. Mesmo assim, na horta, não faltava a banheira branca velha no meio das hortaliças, para lavar os pés de alface e as cenouras, imagino. Certa vez, alguém trouxe um jacarezinho de Mato Grosso e o colocou na banheira. Ele ficou lá por um bom tempo, até crescer demais e ser transferido para o lago e virar o terror dos pescadores invasores. Estávamos nos anos setenta, não havia patrulhamento ecológico nenhum, bom salientar.
Depois de todas estas paradas eu já estava bem atrasada, corria até o limoeiro, colocava alguns limões na sacola e voava para a cozinha. Oh! filha só isto? Minha avó reclamava. Isto só dá para a limonada! Volte lá e apanhe mais. Ordenava já apressada.
Bom, ia começar tudo de novo: um sonho, um mergulho, um caquí...